segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

O MONOTEÍSMO É COMPOSTO DO POLITEÍSMO

Assim como na estória do médico e o monstro onde o Doutor inventa uma fórmula para separar o lado mau do homem e subtraí-lo de sua personalidade, o homem precisou em algumas mitologias separar o lado divino e o lado maldito do que chamamos Deus, ficando assim estabelecido que Deus é o bem e o Diabo o mal. É claro que a primeira coisa a ser repudiada foi o zoomorfismo na mitologia judaica, pois se tratando de um povo nômade e pastoril tinha seus rebanhos atacados por diversas feras, por outro lado, quando adoramos animais não mais nos colocamos superiores a estes, e ainda por cima divinizamos arquétipos (pois os animais têm características que em muito nos identificamos), fazendo com isso vivenciar nossa natureza individual e existencialista em sua plenitude (postura que obviamente não colabora com a uniformidade comportamental estabelecida pelas religiões mosaicas).
O que aconteceu na estória do Doutor é que ele ao tomar a poção se transformou num monstro.É claro que somente isso poderia ter ocorrido, pois do contrário, o médico no momento em que bebesse a poção cairia morto no chão; por que se tivesse ele subtraído sua parte bestial, animal não poderia continuar vivo.
Foi preciso então abolir o zoomorfismo e o antropozoomorfismo da cosmovisão do que chamamos e tentamos entender por Deus e criar uma figura antropomórfica que como diziam os essênios só habitava e reconhecia o povo eleito, cobrindo o mesmo de bênçãos e dádivas, desde que esses seguissem com retidão as leis ditadas por seu Deus.
O fato é que não se podendo negar a natureza bestial, sutil e sofisticadamente antropófaga humana se fez mister a criação do Diabo como o bode expiatório AZAZEL para levar a culpa de nossos pecados, faltas, imperfeições e toda nossa gama de monstruosidades, colocando assim Deus como nosso Pai, benfeitor, pois mulher é coisa do Diabo, ainda mais numa cultura machista, que no primeiro mandamento nos ordena ama-lo sobre todas as coisas e ao mesmo tempo teme-lo, ficando bem claro que Ele é o todo poderoso, capaz de vencer o mal, destruir o Diabo, e tudo o mais que todos já estão carecas de saber (Só não entendo por que Ele perde tanto tempo, deve ser por sadismo ou por falta de consciência da realidade aqui em baixo, pois sendo Ele onisciente tudo deve saber. Mas isso é assunto para outro tema).
Não posso aceitar de forma nenhuma a existência do Diabo como uma personalidade à parte de Deus, assim como não posso aceitar Deus como uma personalidade à parte do homem.Pois sendo Deus onipresente, onipotente e onisciente, criador de tudo, Ele se expande em toda sua criação fazendo dela a si mesmo.
O que poderia ser realmente o que nós humanos chamamos Deus é algo que ainda não temos a mínima idéia. Por isso Deus tem tantos nomes e máscaras, pois cada um tem sua cosmovisão particular (quando o indivíduo costuma usar um pouco de sua massa cinzenta que preenche sua caixa craniana) e cada povo conforme suas necessidades, condições climáticas, geográficas, etc. criaram á partir do mito de algum herói o Deus que mais lhe apraz (deus esse que sempre é superior e mais forte que os demais deuses que não passam de pobres demônios adversários).
Na verdade o Diabo não existe, ou é Deus que não existe. O que existe é o ABSOLUTO, com duas faces: a que pode estar boa ou a que pode estar má, e ás vezes neutra, conforme em que lugar, ou, em que momentos nos encontram.
Através do deus IFÁ (palavra de ORUNMILÁ, título que OLODUMARÉ, Deus supremo Yorubá, tem de testemunho de toda criação) consultando os oráculos (OPELÉ, CAURÍS, OBÍ, OLUBAÇA) é possível se ver o ODÚ (seria como destino)
Do indivíduo, constatando assim se o mesmo se encontra em IRE (bondade) ou OSOBO (contrário de ire) e também a solução, a atitude mais coerente a ser tomada, ou até mesmo o EBÒ (magia para mudar o odú). Assim sendo, nós africanistas podemos conversar com nosso Deus OLODUMARÉ (dono dos odús maiores) pedindo a Ele conselhos e soluções para direcionarmos nossas vidas. OLODUMARÉ não castiga, não condena, e também não nos obriga a amá-lo; ORÍ INÚ (deus interior que habita o chakra cardíaco, centelha divina) escolhe para nos dar IRE, um IRUNMOLÉ (força elemental da natureza) para ser nosso ORISÁ (força da cabeça) que por sua vez influencia nossa personalidade conforme seus arquétipos, nos levando assim a viver plenamente nossa individualidade com responsabilidade e sem culpabilidade. Mas infelizmente certos sacerdotes tomam uma postura diferente criando muitas vezes até dependência psicológica, postura que foge da filosofia Yorubana, mas que lamentavelmente, sofreu a influência da inquisição e de sacerdotes mitômanos que ao invés de orientar, como em outras tantas seitas tiram proveito de pessoas que se encontram em situações desesperadoras ou desorientadas.
Dessa forma concluo que do politeísmo nasceu o monoteísmo, pois cada homem tenta sempre dominar seu próximo, se expandindo assim para que cada povo possa dominar os demais povos, sendo sempre o dominador respaldado por um deus que endossa inescrupulosamente as guerras e as formas mais sutis e subjetivas de dominação.

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